quarta-feira, 27 de maio de 2015
quinta-feira, 21 de maio de 2015
Quinze descobertas que mudaram a ciência na última década15
Quinze descobertas que mudaram
a ciência na última década15
Desde que o mundo assistiu em
suspense ao pouso do robô Philae sobre o cometa 67P-Churyumov-Gerasimenko, a
"cereja do bolo" da missão Rosetta, da Agência Espacial Europeia
(ESA, na sigla em inglês), as descobertas da ciência tornaram-se assunto
regular nas mídias sociais. Seja pela postagem de fotos da Terra vista do
espaço, promovida por astronautas e satélites, ou pelos avanços de cientistas
na busca pela reprodução da vida e erradicação de doenças, a ciência tornou-se
uma assunto "sexy". Veja nossa lista de grandes descobertas da última
década e quais você acrescentaria para formar uma lista das "20
mais".
1. Plutão rebaixado
(2005)
Em
janeiro de 2005, uma equipe coordenada pelo astrônomo Mike Brown, do
Observatório Palomar, na Califórnia, descobriu o planeta anão Eris, com 27%
mais massa que Plutão e bem próximo dele, numa região conhecida como cinturão
de Kuiper. O achado trouxe uma consequência: no ano seguinte, a União
Astronômica Internacional entendeu que a probabilidade de encontrar outros
corpos rochosos gelados com aquelas dimensões na região era tão alta (como se
confirmou depois), que a definição do pobre Plutão não fazia mais sentido. O
resultado? Ele foi rebaixado para "planeta anão". Vale lembrar que a
Nasa (agência espacial americana) enviou uma sonda para Plutão pouco antes da
mudança. E a New Horizon deve chegar ao destino no meio deste ano.
2. Matéria escura
existe mesmo (2006)
Uma
colisão entre dois aglomerados de galáxias registrado pelo telescópio Chandra,
da Nasa, trouxe a evidência que faltava para os astrônomos confirmarem a
existência da matéria escura. Até então, todos já sabiam que boa parte do
Universo (cerca de 25%) é composta por esse material, que é invisível (não
emite luz), mas exerce força gravitacional. A colisão, que formou o aglomerado
1E0657-556, gerou tanta energia que a matéria comum que existia parou, mas a
matéria escura "continuou andando". Apesar de provar sua existência,
os cientistas ainda não sabem do que é feita essa coisa invisível - eles
imaginam que seja uma partícula ainda não descoberta. Não confunda o termo com
"energia escura", que provavelmente existe em abundância maior ainda
no Universo e também foi foco de estudos importantes na última década.
3. Células
reprogramadas (2007)
Células-tronco
são a grande promessa da ciência para revolucionar a medicina, já que podem se
transformar em qualquer outra célula do corpo, e não há nada igual às
embrionárias nesse aspecto. Mas a utilização desse recurso envolve questões
éticas. Pesquisadores apresentaram uma alternativa bastante promissora ao
conseguir reprogramar células adultas de pele humana para que se tornassem
capazes de se diferenciar em vários tecidos. Dois grupos independentes -- um
liderado por James Thomson, da Universidade de Wisconsin-Madison, nos EUA, e
outro por Shinya Yamanaka, da Universidade de Kyoto, no Japão --
demonstraram em 2007 a eficácia de um método que já tinha sido usado com
sucesso em camundongos um ano antes. Yamanaka até recebeu o Nobel, em 2012, por
suas pesquisas. Só em 2014, no entanto, é que foi feito o primeiro teste em
humanos com células iPS. Uma mulher de 70 anos, no Japão, recebeu um implante
para tratar uma doença ocular que causa cegueira. Apesar dos avanços, que já
tem feito cientistas recriarem tecidos de órgãos e até neurônios, ainda há um
longo caminho pela frente para confirmar se as iPS são mesmo o futuro da
medicina.
4. Planetas como o
nosso lá fora (2008)
Com
ajuda do telescópio Hubble e de observatórios no Havaí, astrônomos conseguiram
"fotografar" exoplanetas (aqueles fora do Sistema Solar) pela
primeira vez. Eles promoveram uma espécie de eclipse artificial para conseguir
se livrar do brilho das estrelas, que atrapalhava a visão desses planetas
distantes. Os primeiros "fotografados" foram um exoplaneta com três
vezes a massa de Júpiter em volta da estrela Fomalhaut e três outros em volta
da estrela HR 8799. Desde então, os cientistas têm descoberto planetas
extrassolares em profusão. "Em 2004 eram poucas dezenas, e atualmente o
número de confirmações se aproxima de 2.000", comenta o astrofísico
Gustavo Rojas, da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos). Há sistemas
planetários múltiplos, planetas em sistemas estelares múltiplos e muitas
Super-Terras na lista, como destaca o especialista. E, segundo dados do
telescópio Kepler, da Nasa, cerca de uma em cinco entre as 50 bilhões de
estrelas da nossa galáxia devem ter em sua órbita um planeta com condições
semelhantes à Terra e com potencial de abrigar vida.
5. Água em Marte (2008)
A
sonda Mars Phoenix Lander, da Nasa, detectou, em 2008, minerais no solo de
Marte que indicam que o Planeta Vermelho já esteve coberto por lagos, rios e
outros ambientes capazes de abrigar vida. O equipamento também fotografou
pedaços de um material brilhante em um buraco que parecia gelo, reforçando o
indício revelado por outras sondas da presença de água abundante no passado do
planeta. Em 2013, porém, a sonda Curiosity trouxe uma revelação ainda mais
notável: ainda há muitas moléculas de água presas entre os minerais no solo do
planeta. Pode parecer pouca coisa, mas disponibilizar H2O poderá ser crucial no
caso de o homem viajar a Marte um dia.
6. Em busca da
"capa da invisibilidade" (2008)
Cientistas
da Universidade da Califórnia, nos EUA, anunciaram que estão mais perto de
criar um material que pode tornar objetos tridimensionais
"invisíveis". Eles desenvolveram dois materiais que podem reverter a
direção da luz em torno dos objetos, fazendo com que eles
"desapareçam". Ele são chamados de "metamateriais" -- não
existem na natureza e são criados artificialmente em escala nano, com
propriedades óticas que fazem a luz se comportar de forma não natural. Ainda
estamos longe de criar uma "capa de invisibilidade" digna dos livros
de Harry Potter, mas há muitos avanços na área.
7. Ciborgues à
vista (2009)
Vários
avanços foram feitos na última década no que se refere à interface
cérebro-máquina, abrindo caminho para ajudar pessoas com deficiências, paralisias
ou que sofreram amputações a recuperar os movimentos. Em 2009, Pierpaolo
Petruzziello, italiano que vive no Brasil, conseguiu controlar um braço
robótico usando a própria mente, com eletrodos conectados ao sistema nervoso.
Ele foi o primeiro paciente a fazer movimentos complexos com as mãos, como
pegar objetos, com o pensamento. Destacam-se, nessa área, estudo do brasileiro
MIguel Nicolelis, que na última Copa do Mundo fez um paraplégico chutar uma
bola com ajuda de um exoesqueleto.
8. Primeira célula
100% artificial (2010)
Pela
primeira vez, cientistas conseguiram criar uma célula controlada por um genoma
sintético, criado a partir de instruções de computador. A equipe liderada pelo
cientista americano Craig Venter utilizou o genoma de uma bactéria, a Mycoplasma mycoides, e o implantou em
uma célula natural de outra bactéria cujo material genético tinha sido
removido. O micróbio foi "reinicializado" e passou a se replicar,
dando origem a colônias de células sintéticas. O feito abriu portas para que, no
futuro, seja possível criar em laboratório micro-organismos capazes de
sintetizar proteínas importantes para o ser humano, como vacinas ou
biocombustíveis. Também gerou críticas de ONGs, que alertaram para o risco de
micróbios sintéticos caírem na natureza e alterarem o meio ambiente.
9. Temos DNA Neandertal
(2010)
A
revelação abalou a arqueologia. Pesquisadores do Instituto Max-Planck de
Leipzig, na Alemanha, provaram que os homens de Neandertal, espécie extinta há
30 mil anos, conviveu com os primeiros homens modernos. E mais: tiveram
relações sexuais e filhos com eles. De acordo com a equipe, cerca de 3% do
nosso DNA é Neandertal. O sequenciamento genético completo desse hominídeo foi
concluído pela mesma equipe em 2013, e várias outras descobertas foram
feitas em seguida. Um estudo da Universidade de Washington, por exemplo,
encontrou até 20% de genoma Neandertal presente em humanos modernos. Segundo os
cientistas, genes que causam diabetes tipo 2, doença de Crohn e lúpus podem ser
remanescentes desse cruzamento. As regiões do DNA humano que mostraram maior
frequência de genes Neandertais são aquelas ligadas à produção de queratina,
uma proteína presente em nossa pele, unhas e cabelos.
10. Sinais do
buraco negro no centro da Via Láctea (2011)
Há
muito tempo os astrônomos falam sobre a existência de um enorme buraco negro
bem no centro da nossa galáxia, a Via Láctea. Ele até tem nome: Sagitario
A-estrela e estima-se que contenha aproximadamente 4 milhões de vezes a massa
de nosso sol. Observações feitas na última década trouxeram provas mais
concretas do objeto (ninguém ainda conseguiu enxergá-lo diretamente). Uma delas
ocorreu no final de 2011: com ajuda de telescópios europeus, foi possível
detectar uma nuvem de gás com massa muito superior à da Terra bem próxima de
ser devorada pelo buraco negro. Em 2013, novas observações mostraram a nuvem
sendo esticada pelo campo gravitacional do buraco negro. Os cientistas
acreditam que acompanhar o fenômeno ainda trará dados importantes nos próximos
anos. Outra evidência forte do "devorador" do centro da Via Láctea
foi registrada em 2012, com ajuda do telescópio de raios-X Chandra, da Nasa -
pesquisadores descobriram uma enorme quantidade de partículas energéticas sendo
"vomitada" pelo buraco negro.
11. A
"partícula-deus" existe (2012)
A
descoberta do Bóson de Higgs, a partícula que desvenda o mistério da massa, foi
um dos principais avanços científicos de 2012 e também das últimas décadas.
Detalhado pelo britânico Peter Higgs em 1964, o bóson é responsável por criar
um campo de força dentro do átomo que dá massa às partículas. Por exemplo: se
elas interagem menos com o campo, ficam com pouca massa, como os elétrons. Se
interagem bastante, passam a ter mais massa, como é o caso dos quarks. Sem o
bóson, dizem os cientistas, átomos agrupados no Universo não poderiam existir,
o que inclui os seres humanos. Por isso ele ficou conhecido como
"partícula de Deus" (embora o termo original fosse
"partícula-deus"). O experimento que comprovou a teoria ocorreu em
julho de 2012 no Laboratório Europeu de Física de Partículas (Cern), com ajuda
do Grande Colisor de Hádrons (LHC, da sigla em inglês), considerado por si só o
maior experimento científico de todos os tempos. Os pais da teoria -- Peter
Higgs e François Englert -- receberam o Nobel de Física já no ano seguinte.
12. "DNA
lixo" não é lixo (2012)
Cientistas
do projeto internacional Enciclopédia de Elementos do DNA (Encode) descobriram
que 98% do código genético, antes conhecido como "DNA lixo", exercem
papel importante no desenvolvimento e na manutenção do corpo humano. Até então,
acreditava-se que apenas 2% do DNA eram funcionais, já que somente essa parcela
codifica proteínas. No meio do que já foi considerado descartável, há milhões
de "interruptores" que determinam quando e onde os genes são ligados
ou desligados. Muitos deles estão associados a mudanças genéticas que podem
levar a problemas cardíacos, diabetes, transtornos mentais e outras doenças. O
Encode, criado em 2003 para dar sentido ao enorme "mapa" decifrado
pelo Projeto Genoma Humano, abriu as portas para um enorme campo de pesquisas e
provou que o termo "DNA lixo" é que precisa ir para o lixo.
13. Óvulos criados
a partir de células adultas (2012)
Pesquisadores
da Universidade de Kyoto conseguiram transformar tanto células-tronco
embrionárias quanto células pluripotentes induzidas (iPS), formadas a partir de
células adultas, em óvulos viáveis. O experimento foi feito em camundongos.
Para testar a fertilidade dos óvulos, eles foram removidos dos roedores para
uma fertilização in vitro e, depois, reimplantados. As fêmeas geraram proles
férteis com óvulos gerados a partir dos dois tipos de células-tronco.
Cientistas já haviam criado espermatozoides a partir de células-tronco da
medula óssea feminina, em 2008, mostrando que um dia será possível ter filhos
sem a presença de um homem. Ambas as linhas de pesquisa são importantes para,
no futuro, ajudar milhares de pessoas que não conseguem gerar descendentes.
14. Você não está
sozinho (2012)
Pesquisas
ao longo dos últimos anos levaram à conclusão de que cada um de nós abriga dez
vezes mais bactérias do que células humanas. Para não falar em outros
micro-organismos. Cientistas de um projeto que reúne quase 80 instituições
anunciaram, em 2012, ter identificado todo o microbioma humano, ou seja, os
trilhões de bactérias e vírus que vivem no nosso corpo. Cada pessoa abriga
cerca de 10 mil espécies diferentes de micro-organismos. "Essas
descobertas revolucionam nossa noção de saúde e doença", comenta o
infectologista Reinaldo Salomão, professor titular da Universidade Federal de
São Paulo, lembrando que vários estudos já associaram doenças como a obesidade
a alterações na flora bacteriana.
15. Novo
antibiótico após 30 anos (2015)
Pesquisadores
do Centro de Descoberta Antimicrobiana da Universidade do Nordeste, em Boston,
anunciaram neste ano a descoberta de um novo antibiótico - a última classe
desse tipo de medicamento havia sido introduzida em 1987. A teixobactina foi
testada em animais e curou facilmente várias infecções, como a tuberculose, sem
apresentar efeitos colaterais. O melhor de tudo é que a molécula se mostrou
eficaz contra alguns micro-organismos resistentes aos antibióticos hoje
existentes, o que é uma ótima notícia. O curioso é o que está por trás da
descoberta, como ressalta o infectologista Reinaldo Salomão, professor titular
da Universidade Federal de São Paulo: um método que extrai bactérias que vivem
no solo. Embora ele seja riquíssimo em micro-organismos, apenas 1% deles
sobrevivem em laboratório. "Hoje sabe-se que aquilo que conhecemos
representa apenas 1% do universo da microbiologia", diz o infectologista.
Imagine o potencial desses 99% para curar doenças...
Consultoria:
Gustavo Rojas (astrofísico/Universidade Federal de São Carlos), Marcelo Knobel
(físico/Universidade Estadual de Campinas) e Reinaldo Salomão
(infectologista/Universidade Federal de São Paulo).
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015
Fósseis encontrados na Espanha preenchem lacuna da evolução humana
Fósseis encontrados na Espanha preenchem lacuna da evolução humana
Do UOL, em São Paulo
19/06/201415h00
Fósseis
encontrados em um sítio arqueológico espanhol, incluindo 17 crânios quase
completos de hominídeos do Pleistoceno Médio, lançam luz sobre um dos períodos
mais controversos da evolução humana. A coleção de ossos encontrada na região
do "Abismo dos Ossos" revela características típicas dos Neandertais,
associadas com as de hominídeos mais primitivos. A descoberta reforça a
hipótese de que os caracteres definidores do homem de Neandertal se
desenvolveram aos poucos e em períodos diversos, e não de uma vez.
No
Pleistoceno Médio, entre 400 e 500 mil anos atrás, espécies humanas arcaicas se
separaram dos grupos que viviam na África e no Leste Asiático e se instalaram
na Eurásia. Isolado dos demais, esse grupo desenvolveu as características que
definem a linhagem Neandertal. Quando o homo sapiens chegou à Eurásia,
alguns milhares de anos depois acabaram suplantando os Neandertais. Havia
incompatibilidade reprodutiva entre as duas espécies.
O
grau de diferenciação entre os Neandertais e os humanos que os precederam, em
tão pouco tempo, sempre surpreendeu os cientistas. Faltava uma boa amostra da
população europeia que viveu há cerca de 400 mil anos, os primeiros hominídeos
da linhagem Neandertal; os 17 crânios recém-descobertos preenchem essa lacuna e
fortalecem a hipótese da acreção que diz que os Neandertais desenvolveram suas
características em épocas diferentes, não em um único processo evolutivo.
"O
sítio do Abismo dos Ossos é único porque lá há um acúmulo sem precedente de
fósseis desse período. Nada assim já havia sido descoberto, para nenhuma
espécie extinta de hominídeos", afirma Juan-Luis Arsuafa, professor de
Paleontologia da Universidade Complutense de Madri. O sítio é escavado e
estudado desde 1984. "Em 30 anos, descobrimos cerca de 7.000 fósseis humanos,
que compõem pelo menos 28 indivíduos", explica Ignacio Martínez,
paleontólogo da Universidade de Alcalá.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015
Nasce a evolução biológica
Nasce a evolução biológica
Por Salvador Nogueira
Mais
um dos mistérios que cercam a origem da vida parece ter sido decifrado por um
quarteto de cientistas na Alemanha. Eles basicamente descobriram como a
evolução pode ter recebido o pontapé inicial da natureza, sem nenhuma ajuda
externa.
Talvez
surpreenda, sobretudo para aqueles que se apegam a expressões
“curinga” como “complexidade
irredutível” para se esquivar do problema
científico do surgimento da vida, o fato de a solução encontrada pelos
pesquisadores — e testada em laboratório — ser de uma simplicidade franciscana.
Comece
com microporos numa pedra aquecida, imersa em água. Nada diferente do que
já se esperaria encontrar em rochas vulcânicas submersas nos oceanos da Terra,
quatro bilhões de anos atrás. O único fator importante é que exista um
gradiente de temperatura dentro do microporo — ou seja, que ele seja mais
quente numa ponta e mais frio noutra. Algo que já aconteceria mesmo,
naturalmente. Aí a “mágica” já está feita.
Os
microporos assumem praticamente a função de protocélulas, promovendo a
replicação de moléculas portadoras de informação genética, como RNA ou DNA. Com
um detalhe adicional: o sistema favorece a replicação de moléculas cada vez
mais longas, capazes de armazenar quantidade crescente de informações
genéticas. Isso resolve um dos principais dilemas apresentados pelos estudos
sobre a origem da vida: como isso pode ter acontecido se, ao serem deixadas ao
sabor do mar aberto, as moléculas de DNA e RNA nunca cresceriam para ter
sequências maiores, simplesmente porque é mais fácil replicar as moléculas
curtas do que as compridas? O resultado mais esperado disso seria uma
“seleção natural às avessas”, empurrando sempre na direção da redução da
complexidade. A vida nunca apareceria desse jeito. Eis o problema.
Contudo,
o esforço de Dieter Braun e seus colegas da Ludwig-Maximilians-Universität, em
Munique, vira esse jogo espetacularmente. Como? A descrição completa saiu em artigo publicado na semana passada na revista “Nature Chemistry”. O trabalho
mostra que o gradiente de temperatura, combinado a um processo chamado de
convecção laminar, promove a entrada e saída de material dos poros e também
encoraja o acúmulo e a multiplicação de DNA longo, desprezando as moléculas
mais curtas. “Moléculas de 75 nucleotídeos sobrevivem, enquanto moléculas com a
metade desse tamanho morrem, o que inverte o dilema da sobrevivência do mais
curto”, escrevem os autores do trabalho.
Um
sistema que empurra naturalmente as moléculas de DNA e RNA a ficarem maiores é
a rota certeira para o surgimento da vida como a conhecemos. Afinal,
quanto mais compridas as moléculas, mais sequências de letrinhas químicas (os
chamados nucleotídeos) cabem nelas. Em suma, cabe mais informação genética, com
preservação natural daquelas que, pelas mutações aleatórias que contêm, se
replicam com mais facilidade e eficiência. Imagine esse processo avançando por
muito, muito tempo, até que uma molécula tropece numa receita para produzir uma
camada protetora ao seu redor. No interior dessa cápsula, a molécula genética
complexa poderia finalmente deixar o microporo e ganhar o oceano, sem
correr o risco de ser literalmente “diluída”. O resto, como dizem por aí, é
história.
DESAFIOS PELA FRENTE
Por
que esse trabalho não está sendo celebrado como a solução definitiva da origem
da vida? Bem, porque ele de fato não é exatamente isso. Ele mostra o que pode
ter sido a origem dos processos evolutivos, ainda puramente químicos, que
antecederam as primeiras formas de vida. Mas faltam aí dois passos cruciais
iniciais que antecedem essa etapa. Como se produzem as primeiras moléculas
capazes de portar informação genética (RNA e DNA) e como elas primeiro
“aprendem” a promover sua própria replicação? (No experimento, a replicação é
promovida por uma proteína de origem biológica, que obviamente estava ausente na
origem da vida.)
Essas
são perguntas que ainda seguem sem solução. A síntese de RNA e DNA em um
ambiente úmido permanece como um desafio porque a criação da molécula exige
muitos passos químicos. Até aí, nada demais. O problema é que eles costumam ser
perturbados pela água antes que cheguem ao seu desejado desfecho. A água
desmancha os compostos antes que eles virem RNA ou DNA.
Alguns
pesquisadores buscam chegar lá trabalhando em ambientes
desérticos (talvez até em outros planetas). Outros procuram soluções ainda
oceânicas, mostrando que reações
hoje típicas de metabolismo biológico (que incluem as que são capazes de
sintetizar coisas como RNA ou DNA) poderiam ser impulsionadas a partir de
química mais simples. Se você seguir os links acima, verá que eles
estão bem perto, mas ainda não chegaram exatamente lá.
Uma
vez que se produzem as moléculas portadoras de informação, sobretudo no caso do
RNA, a auto-replicação já é um problema mais bem encaminhado. Sabemos que o RNA
é uma molécula versátil, que pode não só codificar informação como promover sua
própria cópia, sem a necessidade de proteínas adicionais. Ele seria o ponto de
partida para a evolução biológica, como a entendemos hoje.
No
frigir dos ovos, o que os resultados já sugerem é que as barreiras
remanescentes não são intransponíveis. Pouco a pouco, cada um dos passos
envolvidos na origem da vida é recriado em laboratório, conforme as técnicas e
a compreensão dos problemas evoluem. E tudo leva a crer que nenhuma condição
extraordinária foi necessária para a aparição de formas de vida. Muito pelo
contrário. O que os experimentos mostram é que tudo pode ter sido bem simples.
Uma pequena variação de temperatura, a presença de ferro diluído no oceano e outras
coisas assim, nada complicadas ou incomuns. O único requerimento realmente
crítico para cobrir todas as etapas do processo sem ajuda artificial é o tempo
— alguns milhões de anos, para ser preciso. Por isso não devemos esperar que os
pesquisadores consigam, num único experimento, partir de química simples e
terminar com um ser vivo. Mas eles já conseguem reencenar as diversas etapas
cruciais separadamente. Falta muito pouco para entendermos a coisa toda.
Estamos quase lá.
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